A Arte Pré-colombiana nas Bienais de São Paulo:
Um referencial para nossa identidade cultural (1951-2003)

Texto de Dalton Delfini Maziero

Em 1914, o Metropolitam Museum de Nova York reuniu em numerosas caixas, uma coleção de peças arqueológicas e etnológicas considerada pouco interessante do ponto de vista artístico e cultural. Seus diretores na época, procuravam apenas ganhar espaço para a inclusão de novas peças de arte européia, consideradas mais atrativas e valiosas. As caixas foram enviadas então ao Museu de História Natural, repletas de artefatos arqueológicos provenientes de antigos povos pré-colombianos e outros, originários da África e Ásia (1).
Embora interessantes, aquelas peças representavam uma mera curiosidade etnológica para a maioria dos cientistas. Eram classificadas genericamente como Arte Primitiva, termo com certo sentido pejorativo, determinante de uma arte menor, sem o brilho e importância das pinturas e esculturas modernas.
Quase 70 anos depois, o mesmo Metropolitam Museum abriria suas portas para novas, modernas e atrativas instalações, destinadas à exposição permanente das peças de arte dessas mesmas civilizações pré-colombianas, africanas e asiáticas que antes havia ignorado. Essa radical mudança na linha de exposição do acervo, valorizou os artefatos arqueológicos junto aos colecionadores e refletiu o gosto popular, alimentado pelas notícias de novas e empolgantes descobertas no continente americano, como a de Machu Picchu em 1911, por Hiram Bingham.


Capa do catálogo "Peru
pré-hispanico - 3000 anos
de arte", VII Bienal, 1963
Em 1962, no Brasil, a Fundação Bienal de São Paulo dava o passo inicial para a primeira mostra de arte pré-colombiana em nosso país, a ser exposta na VII Bienal de Arte (1963). Tencionava o fundador da Bienal, Francisco Matarazzo Sobrinho, reunir em uma única exposição, obras antigas e representativas de todos os "estados" americanos em conjunto com a OEA. Segundo a proposta original - modificada posteriormente - era "intuito da Bienal de São Paulo levar ao conhecimento do povo brasileiro, da comunidade dos países americanos e, em especial modo do mundo extra-continental, as magníficas obras de arte do período pré-colonial dos diversos países americanos" (2). Seriam 50 peças de cada país, entre as mais expressivas de sua arte, elaboradas em ouro, prata, cobre, cerâmica, tecido, pedra e madeira.
A VII Bienal revelou, senão um panorama das raízes artísticas em nosso continente, ao menos novos elementos sobre o passado americano, então desconhecidos do
visitante leigo.

O que une esses dois acontecimentos envolvendo o Metropolitam Museum de Nova York e a Fundação Bienal de São Paulo não é apenas a valorização dos artefatos pré-colombianos, mas antes de tudo, o reconhecimento de uma arte legitimamente americana. Em algum momento entre 1914 e 1963, os americanos começaram a olhar para seu próprio continente, sua arte e cultura. Esse processo culminou com a valorização da arte nativa e conseqüentemente, a conscientização de uma identidade americana. Esse "movimento" que amadureceu ao longo do século XX - complementado pelas exposições artísticas - resultou recentemente, com a Mostra do Redescobrimento (Brasil 500 Anos) e com a exposição Brasil, 50 Mil Anos, promovida pelo MAE (USP).
Ciccillo transparecia em suas cartas a necessidade de valorizar a relação entre os países americanos, através de manifestações de nossa arte pré-colonial. Dispondo de recursos financeiros, semeava suas idéias na forma de exposições de arte e fundações de museus. Em correspondência com Arturo Croce, diretor da Casa de Cultura e Belas Artes de Caracas, escreveu manifestando sua vontade em que as exposições de arte pré-colombiana conduzissem a "um expressivo sentido de colaboração cultural entre os países do
continente
" (3).
Seu sentimento em relação a arte antiga gerou a idéia de criação do primeiro museu de arqueologia paulista. Surgia assim, na época da VII Bienal, o MAA (Museu de Arte e Arqueologia), mais tarde MAE (Museu de Arqueologia e Etnologia) da USP. Jornais de época e documentos pertencentes ao acervo pessoal de Francisco Matarazzo Sobrinho - sob guarda da Fundação Bienal - revelam que a criação do antigo MAA partiu de iniciativa do senhor Matarazzo, após a realização de uma viagem a Nápoles (Itália), onde conheceu as escavações das antigas ruínas de Herculano e Pompéia.
O acervo do Arquivo Histórico Wanda Svevo (Fundação Bienal de São Paulo) revela a estreita relação entre a exposição pré-colombiana realizada na VII Bienal e a inauguração do MAA (USP), conforme jornal de época: "Com uma exposição no recinto da VII Bienal, a Universidade de São Paulo inaugurará o Museu Arqueológico de História e Arte Antiga, o primeiro a ser fundado no Brasil" (4).


Museu de Arte e Arqueologia da USP. Figura no trono; pormenor de peitoral de prata. Peru, cultura Chimu, séc. XII
Em 25 de junho de 1964, o Diário de São Paulo publicava: "Será inaugurado hoje, às 11:00 horas, no Edifício da Reitoria da USP, o Museu de Arte e Arqueologia, já integrado no patrimônio da Universidade. Estarão presentes altas autoridades, professores e estudiosos da matéria, que poderão apreciar as 549 peças expostas à visitação pública. Deve-se ao senhor Francisco Matarazzo Sobrinho a criação do Museu, que é o primeiro do gênero em toda a América Latina. Em uma de suas visitas a Itália, viu o senhor Matarazzo a possibilidade que, do ponto de vista histórico, artístico e humanístico, ofereceriam as escavações de Herculanum; e conhecendo as dificuldades que impediam o trabalho, principalmente as decorrentes da recusa de mudanças, por parte de velhos moradores do local, providenciou a construção de prédios, em outros pontos, tendo para tanto, montado uma organização especializada. Vencido o primeiro obstáculo, as escavações foram reiniciadas, surgindo daí, a possibilidade de organizar-se um Museu no Brasil, onde se tornasse possível, através de peças originais e réplicas, desenvolver entre a geração presente conhecimento amplo, sobre bases científicas, das antigas civilizações mediterrâneas."

Partilhando da visão idealizadora de Ciccillo, sua maior colaboradora, Wanda Svevo - responsável pela organização inicial do Arquivo de Artes da Fundação Bienal - escreveu como intenção da Bienal "emprestar o maior ênfase possível aos artistas dos países americanos e mostrar ao mesmo tempo as tradições culturais específicas desse
continente
" (5).
Nem a morte prematura de Wanda Svevo num desastre de avião em 1962 - justamente quando se dirigia a Lima em busca das peças pré-colombianas para a VII Bienal - diminuiu o interesse pelas mostras de artefatos arqueológicos. Nas Bienais seguintes, novas tentativas foram feitas no sentido de reunir, da maneira mais ampla possível, a representação das antigas culturas americanas.

Museu de Arte e Arqueologia da USP. Pormenor de faixa de tecido, com motivo de pelicanos bordados em lã. Peru, cultura Inca, séc. XV

Ao longo de 50 anos de exposição de arte, foram várias as culturas representadas nas Bienais. Do Peru, vieram os Chavin, Inca, Recuay, Mochica, Paracas, Nazca, Chimu, Chancay e Vicus. Da Argentina, os Condorhuasi, Ciénaga, Santamariana, Aguada, Candelária e Belén. Da Colômbia, Tolima, Muisca, Sinu, Darien, Calima e Quimbaya. Da Bolívia, os Tiwanaku. Do Brasil, vieram os Marajós, Santarém, Cunani, Tupiguarani e Guarita, sem contar as inúmeras peças de arte plumária e utilitárias, provenientes de grupos nômades ou sedentários, distribuídos pelo nosso continente.


Capa do catálogo "30 peças de ourivesaria pré-hispânica", VII Bienal, 1963


Capa do catálogo "Argentina, arte antes da história", VII Bienal, 1963


Dentro deste contexto, a VII Bienal foi um marco na realização de mostras de arte pré-colombianas, abrindo caminho para outras tentativas como as da VIII (1965), IX (1967) e principalmente XVI (1981), que conseguiu reunir novamente um grande conjunto de peças arqueológicas, na exposição intitulada Música e Dança no Antigo Peru. Contudo, artefatos brasileiros somente ganharam destaque a partir da XVII Bienal (1983), na exposição
Arte Plumária do Brasil
.
Ao longo das décadas de 70-80, a arte antiga de nossos indígenas parece ter passado pela mesma experiência da arte pré-colombiana em relação aos grandes museus americanos. A arte indígena brasileira, relegada ao esquecimento, silenciava sobre nossas raízes. Somente na década de 90, mostras paralelas às Bienais, como Tradição e Ruptura (1994) e Mostra do Redescobrimento (1999) remediaram a situação, apresentando aos brasileiros, painéis elucidativos de nosso passado.


As Bienais de São Paulo e mostras paralelas:

IV Bienal (1957)

Segundo matéria do jornal O Tempo (28/08/57), uma grande mostra estava sendo planejada para a IV Bienal de São Paulo. Tratava-se de uma apresentação didática da arquitetura mexicana, intitulada "4000 Anos de Arquitetura Mexicana". Nela, estariam contidos capítulos da arquitetura pré-colombiana até o período Moderno mexicano. No período Pré-Hispânico, o destaque ficava por conta das edificações Olmeca, Teothihuacana, Totonaca, Tolteca, Zapoteca e Maya. A mostra ganharia uma Sala Especial na IV Bienal, no setor dedicado a Arquitetura.


Capa do folder "4000 anos de arquitetura mexicana", 1962


Um ano antes (1956), correspondência de Carlos Martins Thompson Flores (Embaixador no México) a Francisco Matarazzo Sobrinho davam conta que tudo ia bem na negociação da mostra: "A exposição consta atualmente de 250 fotografias em preto e branco de tamanho médio de cerca de 50 x 40, coladas sobre uma superfície de alumínio articuladas para poder formar painéis, o que facilita sobretudo sua exibição...Para a IV Bienal, porém...seria acrescida de mais 100 fotografias. Além disso, pela época da Bienal, estará pronto um filme a cor de longa metragem e em 35 mm sobre o mesmo tema da exposição e que a completará. Este filme destina-se a ser exibido em Moscou na primeira metade do ano de 1957. Irá ao Brasil uma cópia possivelmente falada em português para a IV Bienal". Os documentos contudo, não deixam claro o motivo do cancelamento da exposição no ano seguinte.
Somente em 1960, a exposição oficial - promovida pela Sociedad de Arquitectos Mexicanos - chega ao Brasil. Não mais para a Bienal de São Paulo, mas seguindo um roteiro por diversas cidades. Segundo o jornal Tribuna da Imprensa (RJ-15/02/60), a exposição ficou instalada com grande sucesso no MAM-RJ, MAM-SP e finalmente MAM-BA.


VII Bienal (1963)


Visitantes na mostra de arte pré-colombiana da VII Bienal. Foto de Athayde de Barros
Em 1963, a Fundação Bienal de São Paulo, então desvinculada do MAM, conseguiu realizar sua primeira grande mostra de arte pré-colombiana, reunindo em uma mesma sala, 487 peças representativas de 24 culturas sul-americanas, em diversas estantes de vidro e madeira. Ao que tudo indica, esta foi a primeira mostra de arte pré-colombiana do Brasil, a tentar apresentar um painel da arte nativa em nosso continente.
A exposição pré-colombiana foi dividida geograficamente em três grandes blocos, abrangendo os territórios do Peru (Peru Pré-hispânico - 3000 anos de arte), Argentina (Argentina - Arte antes de la história) e Colômbia (Colômbia - Museo Del Oro / 30 piezas de orfebreria Prehispánica). Para cada uma delas, foram produzidos catálogos específicos.


Seu sucesso de público e crítica foi imenso, recebendo um número de visitantes comparável às salas dos artistas premiados. Várias foram as ofertas de itinerância da mostra por parte dos comissários europeus.
O acesso a exposição ocorreu pelo terceiro pavimento do edifício da Fundação Bienal, em sala reservada. Logo na entrada, o visitante podia ver em letreiro, "Homenagem a Wanda Svevo", lembrando a morte da secretária que foi pessoalmente, cuidar da vinda da exposição ao Brasil.

A Tribuna de Santos - 06/10/1963

Pré-Colombiana na VII Bienal
por Geraldo Ferraz

"No terceiro pavimento do Pavilhão Armando de Arruda Pereira, no Ibirapuera, onde se encontra instalada a VII Bienal, há uma parte dedicada à arte pré-colombiana. À porta, à esquerda, visitante, repare no letreiro: "Homenagem a Wanda Svevo".

Foi na viagem que empreendeu para o Peru, em vista da organização da atual exposição de Arte Pré-Colombiana, que Wanda Svevo, então secretária geral da Bienal, em novembro do ano passado, encontraria a morte no desastre do avião que a transportava. Morta em missão da Bienal, a voluntariosa triestina, que tanto fizera pela instituição, encerrou num momento de trabalho, desse trabalho a quem tanto amava e a que dedicou tanto de sua curta vida (dez anos pelo menos ela os deu à Bienal nos quarenta vivido), é justo que fique ligada ao início desta tentativa de incorporar-se à Bienal a história das artes pré-colombianas, o seu nome de guerra. Ela o adotava da família de Italo Svevo, o grande escritor de "A consciência de Zeno", que James Joyce, de Trieste, revelou ao mundo.
Wanda Svevo, uma presença na exposição pré-colombiana


Esse desenho admirável de síntese de um artista pré-colombiano na VII Bienal
Os entendimentos para esta exposição começaram em janeiro de 1962, entre o presidente da Bienal, Matarazzo Sobrinho, Wanda Svevo e o conselheiro atual sr. Oscar P. Landmann. A este coube, afinal, a coordenação da grande exibição. A nova secretária geral, d. Diná Coelho, deu ao movimento todo o esforço e dedicação. E a exposição é um dos grandes motivos pelos quais se deve visitar e estudar a VII Bienal.

Cerca de 400 peças é o que nos mostra a exposição, e elas abrangem um período que cobre 3000 anos de arte pré-colombiana. A maior contribuição aqui reunida é a que foi enviada do Peru, procedente de oito coleções particulares, das quais a maior parte jamais foi exposta fora do país. No Peru, manifestou-se, também, para o fim visado, a cooperação do IAC (Instituto de Arte Contemporânea), tendo a Diretoria desta entidade, especialmente o sr. Manuel Mojica Gallo, seu presidente, dado a mais entusiástica participação, bem como a secretária do IAC, sra. Angélica A. de Moncloa, que se encontra em São Paulo. Para a montagem da exposição, e desde os trabalhos preparatórios, o IAC contratou os serviços técnicos do sr. Juan Luiz Pereira, especialista em objetos de arte pré-colombiana, o qual acompanhou a realização, e ainda se acha em S. Paulo.
Artes das diversas culturas das áreas em que se fixaram os indígenas na região hoje constituída pelo Peru, Colômbia, Equador e Argentina, acham-se representadas nessa exposição. O conjunto procedente do Peru representa uma coleção, a que cabe o qualificativo de maravilhosa, de tecidos pintados e bordados, de peças de até 2000 anos, uma coleção de 100 peças trabalhadas em ouro, e mais de 200 peças das mais essenciais culturas pré-colombianas, concretizadas pela cerâmica das culturas Chavin, Paracas, Muchica, Chimu, Nazca e várias outras. A cultura Inca, a mais conhecida, termina na conquista espanhola, no século XVI.
Enriquece a exposição que se acha na Bienal, uma coleção de peças de ouro, que o Banco da República da Colômbia - proprietário do Museo Del Oro - colocou, generosamente, à disposição da exibição das peças pré-colombianas. Esta coleção de valor inestimável foi especialmente trazida de Bogotá pelo secretário do Banco da República, sr. Álvaro Velez Plaza.
Finalmente, ainda há a contribuição Argentina. Do vizinho país veio uma pequena coleção de objetos de cerâmica e pedra, expressando significativos valores artísticos da arqueologia Argentina. Acham-se esses objetos expostos em duas vitrinas, e é inegável o interesse histórico e artístico que oferecem. A coleção foi cedida, para o panorama que a exposição pretende ser, pelo Ministério das Relações Exteriores da República Argentina.
Quanto a montagem, não poderia ser mais cuidada. Desde a entrada, onde se encontram fotografias da região do Altiplano em que se sentou parte da civilização pré-colombiana, até às fotografias coloridas, iluminadas, das ruínas donde procederam muitas peças desse patrimônio arqueológico, o bom gosto e a informação primam. Atrasado o comparecimento destas peças, não foi possível ter-se o catálogo em tempo, o que se dará nos próximos dias. Trata-se de um catálogo especialmente redigido e que está sendo impresso para fazer com que a exposição pré-colombiana tenha todo o rendimento cultural.
Possivelmente, nem mesmo nos famosos museus dos Estados Unidos e da Europa se encontrem tão bem exemplificados, como nesta exposição da VII Bienal, aspectos marcantes da arte pré-colombiana, pelo nível seletivo das peças que compõem os conjuntos, seja em cerâmica, em tecido, em ouro e outros metais.
A exposição, já o dissemos é um primeiro passo. A Bienal o tomou como ponto de partida para futuras realizações, em que as culturas pré-colombianas sejam mostradas, no quadro das salas especiais informativas de arte, que oferecem tamanho interesse aos estudiosos. A América poderá melhor conscientizar sua cultura mediante estes exemplos."


VIII Bienal (1965)

O sucesso da mostra pré-colombiana na VII Bienal motivou a direção da Fundação Bienal a tentar outra, novamente com foco na arte mexicana. Alguns poucos documentos localizados no Arquivo Histórico Wanda Svevo dão conta que esta mostra fracassou por desinteresse das autoridades mexicanas, que alegaram impossibilidade na seleção das obras, devido a reformas em seu prédio e permanência de suas melhores peças em exposições pelos EUA.


IX Bienal (1967)

Ocorreu dentro da IX Bienal, uma mostra de arquitetura constituída em parte por maquetes e painéis dedicados a arqueologia peruana. Essa exposição levou o nome de Arquitetura Pré-Colombiana do Peru, com conferências e slides do Prof. E. Harth-Terré, da Universidade Nacional de Lima, sobre "Monumentos do Antigo Peru". A maquete apresentada foi posteriormente doada ao reitor da USP. Os detalhes ainda obscuros dessa mostra, exigem uma maior dedicação junto a documentação histórica do Arquivo da Bienal, principalmente no que se refere ao destino da maquete e do filme apresentado na ocasião.


XVI Bienal (1981)

Novamente a arte pré-colombiana ganha destaque através de uma grande mostra intitulada Música e Dança no Antigo Peru, apresentando uma evolução temporal do desenvolvimento de instrumentos musicais e apetrechos de dança. Reunindo mais de 200 obras, em 20 vitrines, a exposição revela tambores, flautas e peças relacionadas ao mundo musical e coreográfico dos antigos povos peruanos.


Capa do catálogo "Música e Dança no Antigo Peru", XVI Bienal, 1981


A mostra, organizada pelo Museu de Arqueologia e Antropologia de Lima, e Instituto Nacional de Cultura do Peru, trouxe artefatos em cerâmica, madeira, osso, concha, prata, cobre, taquara, cabaça e fibras, abrangendo diversas culturas, como a Paraca, Chimu, Nasca, Mochica e Inca. Ocarinas, flautas, tambores, chocalhos, apitos, guizos, trombetas e adornos sonoros - além de vasos e estátuas que representavam animais e figuras humanas tocando música e dançando - revelaram a persistência das tradições pré-colombianas.
Acompanhavam a exposição painéis explicativos e dois vídeos. Além do valor documental, as peças eram de grande interesse artístico, tendo a exposição obtido um extraordinário sucesso.


XVII Bienal (1983)

A arte dos indígenas brasileiros foi lembrada somente na mostra Arte Plumária do Brasil, que ganhou destaque na XVII Bienal de São Paulo. Embora não componha uma exposição de peças antigas como as pré-colombianas do Peru, Argentina e Colômbia, revela uma atenção tardia quanto à arte dos nossos primeiros habitantes. Foram apresentadas mais de 50 peças, além de fotos e painéis.


Tradição e Ruptura - Síntese da Arte e Cultura Brasileira (1994/95)

Pela primeira vez a arte pré-cabralina é incorporada em uma mostra nacional, que pretendeu ser uma síntese da arte e da cultura brasileiras. O período pré-colonial foi representado com pedras lascadas, peças marajoaras, pinturas rupestres e arte indígena além de painéis fotográficos.
Temas como a "Tecnologia e arte das sociedades pré-coloniais brasileiras" e "Arte indígena e sobrevivência cultural" foram exploradas nesta mostra de grande sucesso popular.


Mostra do Redescobrimento / Arqueologia

A Mostra do Redescobrimento originou-se a partir de uma decisão do Conselho da Fundação Bienal de São Paulo, desligando-se posteriormente e transformando-se na Fundação Brasil 500 Anos e em seguida, Brasil Connects.
Finalmente a arte pré-colonial brasileira é utilizada como referencial para compreensão de nossa própria identidade. Módulos como Arqueologia, A primeira descoberta da América, Arte: Evolução ou Revolução? e Artes indígenas recriam um painel histórico com centenas de peças tridimensionais. Pela primeira vez, existe um claro esforço no sentido de rever nosso passado artístico, teorizando questões e acessando-as ao público visitante. As peças expostas não são mais escolhidas apenas pela sua beleza estética, mas pela sua capacidade de interagir e elucidar nosso passado histórico. Foram apresentadas cerca de 150 peças arqueológicas, sem contar dezenas de outras referentes às Artes indígenas (plumária, cestaria e ornamentais).


(1) "Tesouros da Selva"; in Revista Veja, São Paulo, pg. 60, 1982.
(2) Carta de Francisco Matarazzo Sobrinho a Julio César Banzas, Diretor da OEA, 05/10/1962.
(3) Carta de Francisco Matarazzo Sobrinho a Arturo Croce, Diretor da Casa de Cultura e Belas Artes de Caracas, 22/11/1962.
(4) Será a 27 o vernissage da VII Bienal; o Brasil ganha museu arqueológico; in O Estado de São Paulo, 21/09/1963 [?]
(5) Carta de Wanda Svevo a J. M. Cruxent, Diretor do Museu de Bellas Artes, de Caracas, São Paulo, 22/11/1962.

O autor agradece a cortesia da Fundação Bienal de São Paulo e Arquivo Histórico
Wanda Svevo, pelo uso das imagens e documentação histórica.


“Dalton Delfini Maziero é historiador, maquetista, expedicionário e idealizador do site Arqueologiamericana. Dedica-se atualmente, à construção de maquetes arqueológicas e instalação de espaços culturais”