Jornal Cruzeiro do Sul - Sorocaba (09/02/2007)
Historiador quer criar museu de maquetes arqueológicas em Sorocaba

Repórter: Daniela Jacinto
Fotos: Bruno Cecim


Miniatura do Palácio Real de Micenas, na Grécia de 1400 a.C.

Reconstruir monumentos que datam de 2500 a.C. até 1500 d.C. com toda riqueza de detalhes, desde a espessura da parede de um palácio grego, com seus desenhos e cores, por exemplo, até o piso, os corredores, os pilares, as dependências. Essa é a tarefa a que tem se dedicado
o historiador paulistano Dalton Delfini Maziero, que através de maquetes
pretende mostrar ao público como eram
as construções desse período. Por desenvolver um minucioso trabalho de pesquisa a partir das descobertas de

arqueólogos, suas obras são classificadas como maquetes arqueológicas. Dalton, aliás, é o único brasileiro que faz esse tipo de trabalho. Além dele, dedicam-se a essa área apenas um chinês e um francês. Recentemente, o historiador enviou uma proposta para a prefeitura de Sorocaba, sugerindo a criação do que seria o primeiro museu de maquetes arqueológicas do mundo.

Dalton acredita que seu projeto possa interessar a prefeitura como atração turística. Trata-se de uma experiência pedagógica inédita no Brasil, uma vez que não exite outra exposição sobre o tema no país e no mundo. Escolhi algumas prefeituras do interior de São Paulo para enviar a proposta, entre elas a de Sorocaba, por considerar que a cidade tem uma boa estrutura e capacidade para ter um museu desse porte, afirma.
Além do interesse que a temática oferece a turistas e estudantes, Dalton considera que as maquetes contém fortes elementos ligados à arte, geografia, costumes regionais e arquitetura. Elas podem ainda servir como objeto de estudos para universidades, acrescenta.



Dalton Delfini Maziero desenvolvendo
um trabalho no seu ateliê

Foi com base na estrutura de museus europeus que o historiador elaborou seu projeto.
Os museus da Europa surpreendem pela praticidade de criação, manutenção e baixo custo. Esses novos modelos de exposição oferecem um retorno interessante aos apoiadores, que adquirem os direitos de exploração cultural e comercial das peças como a venda de ingressos, aluguel da exposição (itinerância), venda de espaço publicitário, exploração das imagens do museu, captação de recursos federais, além do retorno de mídia que envolve o projeto, diz.
O historiador afirma ainda que apesar de ter enviado a proposta para a prefeitura, se ela manifestar que não tem interesse no museu, poderão ser feitas outras parcerias, com universidades ou empresas que queiram fazer um investimento cultural. Na verdade o que eu proponho é a cessão das maquetes em troca do apoio financeiro com relação aos gastos que tenho com os materiais.

Maquetes

Dalton Maziero tem praticamente quatro maquetes construídas, de uma coleção que não tem número preciso. Não pretendo parar de construir maquetes, farei isso enquanto eu puder, diz. De início, as miniaturas para o museu seriam de diferentes regiões, mas com o tempo, a idéia é que a exposição seja dividida em seis módulos: América do Sul; América do Norte e Central; Ásia e Oceania; Europa; Oriente Médio; e África, além de incluir alguns anexos regionais, entre eles o Lago Titicaca (na fronteira entre Peru e Bolívia) e a região de Yucatã, no México. Vejo essa necessidade de colocar anexos porque algumas regiões do mundo são muito ricas arqueologicamente, então vale a pena aprofundar um pouco mais.
Entre as maquetes já prontas estão o Templo de Tarxien, na Ilha de Malta (2500 a.C.) e o Palácio Real de Micenas, na Grécia (1400 a.C.). Em fase de conclusão até o final de janeiro estão uma vivenda egípcia da cidade de Amarna, de 1300 a.C., e o anexo Lago do Titicaca, que contará com pontos dos sítios arqueológicos e o traçado da expedição que fez. Isso pode ajudar os interessados em explorarem o local, afirma. Acompanha a mostra do Titicaca uma exposição com 30 fotos coloridas. Inclusive eu escrevi um livro, que é o diário da expedição que fiz em 1997, com muita informação histórica, lendária, a conversa com os aymaras, as dificuldades que tive, são quase 300 páginas, mas ainda não publiquei. Esse é um outro projeto, conta.
O tempo para a construção das maquetes depende das horas que tem disponíveis para se dedicar somente a elas. Mas gastei até agora no máximo três meses para fazer, diz. Para resgatar o Templo de Tarxien, por exemplo, Dalton usou cimento celular (pedra pome) para construir a parede, já o telhado foi feito com massa plástica, e a vegetação com fibras vegetais naturais, pedras e cascas de árvores. Acredita-se que esse templo era dedicado à deusa da fertilidade. Essa conclusão deve-se ao fato de terem encontrado no local vestígios de estátuas femininas. Na Europa neolítica, praticava-se o culto às deusas, à mãe terra, à fertilidade. Esse era um templo de sacrifício de animais também, foi encontrada no local até a faca usada para os sacrifícios, explica.
Já a vivenda egípcia da cidade de Amarna é uma das miniaturas mais completas, com a casa principal, celeiros, cozinha, dormitórios, estábulos, jardim e oratório. Escolhi começar por esses patrimônios porque já tinha informações sobre a construção, faltavam apenas de alguns detalhes. Ainda não fiz a de Machu Picchu porque não tenho informações suficientes, e enquanto não conseguir os dados fica inviável. Se não tenho o mínimo de informações precisas, eu não faço a maquete.
Dalton procura construir com o máximo de fidelidade. Pesquiso desde o uso das cores, espessura da parede, dimensão, mas chega um ponto que os próprios arqueólogos não têm a informação. Estudo bastante em bibliotecas especializadas como a da USP e a Mário de Andrade, e utilizo a internet apenas para buscar imagens, porque como fonte de informação ela não é confiável.
O historiador promete que não vai deixar de lado a história dos trabalhadores. Não
vou reconstuir apenas o espaço dos nobres, vou mostrar como era a vida das pessoas comuns também.
Acompanham as maquetes, painéis explicativos com textos sobre a história das construções, a que cultura pertencem e curiosidades das escavações arqueológicas. O foco é a história da arqueologia e não as civilizações porque sobre elas é fácil encontrar informação.


História

Formado em história pela PUC-SP, com especialização em arqueologia latino-americana, Dalton Maziero trabalhou durante anos como supervisor do arquivo histórico da Fundação Bienal de São Paulo, até que no ano passado, aos 40 anos de idade, resolveu largar tudo pra fazer maquetes. Parece loucura, mas a realização de seu sonho resultou num valoroso trabalho de pesquisa, que resgata com o máximo de fidelidade, monumentos históricos considerados patrimônios da humanidade. Sempre gostei de arqueologia, então desde criança acumulo um conhecimento nessa área. Além disso, minha paixão por miniaturas também está entre os fatores que me motivaram a fazer as maquetes arqueológicas.
Dalton esclarece que seu pai era marceneiro, então cresceu em meio a madeiras e ferramentas. Para mim sempre foram familiares esses materiais. Eu já fui até nautimodelista (confecção de barcos em miniatura), e para museus mesmo.
A idéia de fazer as maquetes surgiu durante suas viagens de exploração em países como a Bolívia, Peru, Colômbia e Chile. Quando olhava para as ruínas, eu sentia a necessidade de reconstruir, de dar às pessoas a oportunidade de saberem como era aquela construção. Aí eu fiz um curso de maquete e vi que dava pra fazer.
Depois disso, Dalton elaborou um projeto e enviou a algumas instituições e prefeituras do interior de São Paulo. Já recebi uma proposta da Estação Ciência da USP, que quer fazer uma mostra itinerante, também tive retorno de uma universidade, para dar aulas, mas a proposta do museu mesmo ainda aguarda contato, afirma.
Dalton prefere deixar as peças num local permanente. Até mesmo se for uma sala dentro de um museu já existente, seria o ideal. Eu fiz inclusive uma maquete para mostrar como poderia ser o museu.
Como o que mais gosta de fazer é passar horas e horas dedicando-se à construção das maquetes, Dalton espera que em breve possa dispender mais tempo cuidando disso. Não quero perder tempo administrando a burocracia do espaço. A partir do momento que eu tiver um patrocinador, também não precisarei me preocupar mais com a elaboração de projetos, então poderei me dedicar mais à maquete, e aí a produção vai ser muito mais rápida.
Mais informações sobre o trabalho de Dalton podem ser obtidas no site www.arqueologiamericana.com.br. Contato com o historiador: daltonmaziero@uol.com.br