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Cheguei
em Puno, às margens do lago Titicaca, no final de uma fria tarde.
Ventava muito, e o sol já se punha ao longe por detrás do
Altiplano, um gigantesco planalto que se estende por mais de 200 mil km²,
ocupando boa parte do território boliviano e peruano. Somente quando
olhei a vastidão das águas a minha frente, é que dei
conta da loucura que significava a minha expedição. Foram
mais de 1250 km percorridos a pé, contornando sozinho, o mais alto
lago navegável do mundo, |
a 3812 metros sobre o nível do mar.
Pretendia fazer este percurso em três meses. Como companheira, tinha
apenas uma velha mochila, um bom par de botas, muito planejamento e disposição
para andar. Afinal de contas, levei um ano para criar todo o roteiro e pesquisar
sobre as tradições e costumes regionais. Mesmo depois de tanto
ler sobre ele, o Titicaca impressiona desde o primeiro momento.
São 8562 km²
de água que em muitos pontos, assemelham-se ao mar. Não sem
motivo, recebeu o apelido de "Mar das Alturas". Em determinados
trechos de sua margem, não se pode avistar o lado oposto. Quando
decidi contorná-lo, tinha como objetivo, pesquisar as diversas ruínas
arqueológicas da região, tentando desta forma, reconstituir
um pouco da antiga história dos povos pré-colombianos. Histórias
que falam de um passado longínquo, de cidades submersas, tesouros
perdidos, rituais e crenças que sobrevivem até os dias de
hoje. Estava prestes a entrar em um mundo mágico, habitado pelos
aymaras, antigos remanescentes de civilizações desaparecidas.
Um mundo tão distante do nosso, que leva certo tempo para conseguirmos
compreendê-lo. Ao
longo de todo o trajeto, deparei-me com impressionantes vestígios
de antigas culturas. Algumas de fácil acesso, outras nem tanto. Cemitérios
gigantescos, como Sillustani, cujas sepulturas alcançam 12 metros
de altura! Pirâmides escalonadas de Pucara, um povo guerreiro que
dominou em sua época, quase todo o lago. Os impressionantes monólitos
de Taraco e Huata, ainda por serem descobertos. As muralhas de Tanka Tanka,
com seus 7 metros de altura, repletas de sepulturas, desenhos rupestres
e recintos cerimoniais. A longínqua Iskanwaya, cidade da cultura
mollo, encravada no impressionante vale do rio Llicka. Tiwanaku, com suas
pirâmides, templo semi-subterrâneo e enigmáticas estátuas.
Um verdadeiro "caldeirão" de culturas pré-incaicas,
que viveram no mesmo espaço, atraídas pelas águas do
Titicaca, guerreando e comercializando entre si. Formando um mundo mítico
que até hoje povoa a mente dos aymaras. Conhecer o Titicaca foi,
acima de tudo, um exercício de vida. |