Diário

• A Totora

O viajante menos avisado, que possuir bons olhos, pode se espantar ao enxergar em meio ao Titicaca um grupo de telhados e fumarolas. Casas boiando no lago? Exato, mas não são somente casas. É na verdade uma das comunidade da cultura urus, que vive a flutuar, constituída por escolas, cooperativas, mirante e até museu. No caminho a Urus, conversei muito com Juan, morador de Puno e profundo conhecedor dos costumes locais. Não por acaso, era o guia da embarcação.
Juan apontava-me próximo à margem, uma vasta quantidade de talos verdes que se projetavam a uns 3 metros fora da água.



- Vê aquilo? - perguntou - Aquilo é a totora, uma das maiores riquezas do Altiplano. A ilha para onde estamos indo é toda feita desse junco. Os barcos, as casas, o chão. Essa totora é esponjosa, por isso flutua.
- Como eles fazem isso? Ouvi dizer que a totora apodrece em seis meses!
- Não é bem assim - explicou Juan - Existem várias qualidades de totora, algumas aguentam mais de um ano. Aquela - apontando novamente para a margem - é chamada totora verde. É usada basicamente para a alimentação do gado. Os camponeses que a colhem, costumam misturá-la com palha para os animais.
- Mas quem as colhe? Quero dizer, qualquer um pode chegar lá e pegar?
- Não! A totora é como um patrimônio. Estão quase todas privatizadas. Os grandes totorais a noroeste pertencem hoje à Reserva Nacional do Lago Titicaca.
- E quem faz a administração disso?
Olhando para cima como se estivesse a recordar, falou depois de alguns segundos .
- Acho que os da Reserva pertencem ao Ministério da Agricultura. Eles costumam replantar os totorais dentro dela. Os camponeses fazem o mesmo em suas terras, mas alguns totorais são de origem natural. Nascem sozinhos.
- Vamos supor que eu seja um camponês, e minhas terras estejam afastadas do lago. Como eu consigo totora? Rindo do modo como fiz a pergunta, respondeu.
- Ahhh! Nesse caso, você teria que procurar alguém que tivesse totora sobrando e fazer negócio. Você poderia comprar determinada quantidade de pichus (fardo de totora cortada e amarrada que pode ser carregada por um homem) com dinheiro, ou trocar por outros produtos.
- Que tipo de produtos?, perguntei.
- Geralmente batata, chuño, coca, álcool... coisas assim. Esse tipo de troca se chama arint'asiña, em aymara. Mas a ilha que nós vamos é de totora amarela. Alguns chamam de totora madura. A amarela não é para os animais, ela é melhor para a construção de barcos, casas, quesanas (colchão feito de totora), artesanatos... e ilhas!